Catedral de Brasília
Notícias

Papa na Colômbia: a reconciliação concretiza-se com a contribuição de todos

08/09/2017 14:51

No terceiro dia de visita à Colômbia, o Papa Francisco presidiu a celebração eucarística desta sexta-feira 8 de setembro, na esplanada de Catama, em Villavicencio, a 120 km de Bogotá, capital do país. Na missa, o Santo Padre beatificou os Servos de Deus Jesús Emilio Jaramillo Monsalve, bispo de Arauca, e Pedro María Ramírez Ramos, sacerdote diocesano. A visita papal a essa cidade teve como tema Reconciliação com Deus, com os colombianos e com a criação.

Ao chegar à esplanada de Catama, o Papa fez um giro de papamóvel entre os fiéis e a seguir se dirigiu para a sacristia. Participaram da missa cerca de um milhão de fiéis provenientes também das vastas regiões dos Llanos e povoados indígenas, além de vítimas da violência. 

Natividade de Maria

A Igreja celebra nesta sexta-feira a festa da Natividade de Nossa Senhora. O Papa se deteve, na homilia, sobre esse tema. “O seu nascimento, Virgem Mãe de Deus, é a nova aurora que anunciou a alegria ao mundo inteiro, porque de você nasceu o Sol de Justiça, Cristo, nosso Deus.” 

“A festa da Natividade de Maria projeta a sua luz sobre nós, como se irradia a luz suave do amanhecer sobre a vasta planície colombiana, esta paisagem lindíssima da qual Villavicencio é a porta, bem como na rica diversidade dos seus povos indígenas. Maria é o primeiro esplendor que anuncia o fim da noite e, sobretudo, a proximidade do dia. O seu nascimento nos faz intuir a iniciativa amorosa, terna e compassiva do amor com que Deus se inclina sobre nós e nos chama para uma aliança maravilhosa com Ele, que nada e ninguém poderá romper.”

Segundo Francisco, “Maria soube ser transparência da luz de Deus e refletiu o brilho desta luz na sua casa, que partilhou com José e Jesus, e também no seu povo, na sua nação e na casa comum de toda a humanidade que é a Criação”.

“No Evangelho, ouvimos a genealogia de Jesus, que não é uma mera lista de nomes, mas história viva, história dum povo com o qual Deus caminhou e, ao fazer-se um de nós, quis anunciar que, no seu sangue, corre a história de justos e pecadores, que a nossa salvação não é uma salvação asséptica, de laboratório, mas concreta, de vida que caminha. Esta longa lista nos diz que somos uma pequena parte duma longa história e nos ajuda a não pretender protagonismos excessivos, nos ajuda a fugir da tentação de espiritualismos evasivos, a não abstrair das coordenadas históricas concretas em que nos cabe viver. E também integra, na nossa história de salvação, aquelas páginas mais obscuras ou tristes, os momentos de desolação e abandono comparáveis ao exílio.”

O "sim" de Maria

“A menção às mulheres – nenhuma das referidas na genealogia pertence à hierarquia das grandes mulheres do Antigo Testamento – permite-nos uma abordagem especial: na genealogia, são elas que anunciam que, pelas veias de Jesus, corre sangue pagão, que recordam histórias de marginalização e sujeição. Em comunidades onde ainda se arrastam estilos patriarcais e machistas, é bom anunciar que o Evangelho começa por salientar as mulheres que criaram tendência e fizeram história.”

No meio de tudo isto, Jesus, Maria e José

“Maria, com o seu «sim» generoso, permitiu que Deus cuidasse desta história. José, homem justo, não deixou que o orgulho, as paixões e os ciúmes o lançassem fora desta luz. Pela forma como aparece narrado, nós sabemos antes de José aquilo que aconteceu com Maria, e ele toma decisões em que se manifestam as suas qualidades humanas antes de ser ajudado pelo anjo e chegar a entender tudo o que estava acontecendo ao seu redor. A nobreza do seu coração fez subordinar à caridade aquilo que aprendera com a lei; e hoje, neste mundo onde é patente a violência psicológica, verbal e física contra a mulher, José se apresenta como figura de homem respeitoso, delicado que, mesmo não dispondo de todas as informações, se decide pela honra, dignidade e vida de Maria. E, na sua dúvida sobre o melhor a fazer, Deus o ajudou a escolher iluminando o seu discernimento.”

“Este povo da Colômbia é povo de Deus; também aqui podemos fazer genealogias cheias de histórias: muitas, cheias de amor e de luz; outras, de conflitos, ofensas, inclusive de morte. Quantos de vocês poderiam narrar experiências de exílio e desolação! Quantas mulheres, em silêncio, perseveraram sozinhas, e quantos homens de bem procuraram pôr de lado amarguras e rancores, querendo combinar justiça e bondade!”

 "Que havemos de fazer para deixar entrar a luz? Quais são os caminhos de reconciliação? Como Maria, dizer ‘sim’ à história completa, e não apenas a uma parte; como José, pôr de lado paixões e orgulho; como Jesus Cristo, cuidar, assumir, abraçar esta história, porque nela vos encontrais, todos os colombianos, nela está aquilo que somos e o que Deus pode fazer conosco se dissermos ‘sim’ à verdade, bondade e reconciliação. E isto só é possível, se enchermos com a luz do Evangelho as nossas histórias de pecado, violência e conflito.”

Reconciliação

“A reconciliação não é uma palavra abstrata; se assim fosse, traria apenas esterilidade; antes, distância. Reconciliar-se é abrir uma porta a todas e cada uma das pessoas que viveram a realidade dramática do conflito. Quando as vítimas vencem a tentação compreensível da vingança, tornam-se protagonistas mais críveis dos processos de construção da paz. É preciso que alguns tenham a coragem de dar o primeiro passo nesta direção, sem esperar que os outros o façam. Basta uma pessoa boa, para que haja esperança. E cada um de nós pode ser esta pessoa! Isto não significa ignorar ou dissimular as diferenças e os conflitos. Não é legitimar as injustiças pessoais ou estruturais.

O recurso à reconciliação não pode servir para se acomodar em situações de injustiça. Pelo contrário, como ensinou São João Paulo II, ‘é um encontro entre irmãos dispostos a vencer a tentação do egoísmo e a renunciar aos intentos duma pseudo justiça; é fruto de sentimentos fortes, nobres e generosos, que levam a estabelecer uma convivência fundada sobre o respeito de cada indivíduo e dos valores próprios de cada sociedade civil’. Por isso, a reconciliação concretiza-se e consolida-se com a contribuição de todos. Permite construir o futuro e faz crescer a esperança. Todo esforço de paz sem um compromisso sincero de reconciliação será um fracasso.”

Beatificação

O texto do Evangelho, que ouvimos, culmina chamando a Jesus de Emanuel, o Deus conosco. E como começa, assim termina Mateus o seu Evangelho: ‘Eu estarei sempre com vocês até ao fim dos tempos’ (28, 20). Esta promessa se realiza também na Colômbia: Dom Jesús Emilio Jaramillo Monsalve, Bispo de Arauca, e o sacerdote Pedro Maria Ramírez Ramos, mártir de Armero, são sinal disso, expressão dum povo que quer sair do pântano da violência e do rancor.

Segundo o Papa, “neste ambiente maravilhoso, cabe a nós dizer ‘sim’ à reconciliação; e, neste ‘sim’, incluamos também a natureza. Não é por acaso que, inclusive sobre ela, se tenham desencadeado as nossas paixões possessivas, a nossa ânsia de domínio.” 

O Pontífice recordou as palavras de um cantor colombiano: “As árvores estão chorando, são testemunhas de tantos anos de violência. O mar aparece acastanhado, mistura de sangue com a terra”. 

Segundo o Papa, “a violência que existe no coração humano, ferido pelo pecado, se manifesta também nos sintomas de doença que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos. Cabe-nos dizer ‘sim’ como Maria e cantar com Ela as ‘maravilhas do Senhor’, porque, como prometeu aos nossos pais, ajuda a todos os povos e a cada povo, ajuda a Colômbia que hoje quer se reconciliar e à sua descendência para sempre”.

 

Rádio Vaticano

 

Imprimir Subir Voltar

 Fale Conosco Contatos Webmail Twitter GooglePlus Facebook Flickr Youtube
© Copyright 2013 - Todos os direitos reservados. Voltar a Home